- Ney Anderson Bedin

- 22 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

Quem me contou foi um amigo. Gerente de funerária de cidade pequena. Gente desse tipo não inventa história: a realidade já faz isso melhor. Eu disse a ele que queria conhecer as oficinas funerárias.
Então um dia, ele me chamou. Ele me levou até o fundo do galpão, aquele lugar onde o cheiro da madeira compete com o de formol. Antes de entrar no laboratório, propriamente dito, a gente passou por um depósito. Um almoxarifado da funerária. Ali, sobre uma bancada, como um móvel em luto permanente, me chamou atenção um caixão, parcialmente descoberto.
Não era um caixão comum. Eu nunca tinha visto nada parecido. Era uma peça de arte. Maciça. Madeira de verdade. Coisa fina. A tampa e as laterais eram um delírio de paciência: flores infinitas, todas do mesmo tamanho — um centímetro de largura, quatro pétalas, e em cada pétala, dois vincos exatos. Nenhum a mais. Nenhum a menos.
Aquilo não era artesanato. Era penitência.
Lembrei imediatamente da marcenaria milenar indiana, daqueles mestres que trabalham como se o tempo não existisse. Cada flor repetida não por falta de imaginação, mas por obsessão. Um homem esculpindo a própria despedida como quem pede desculpa ao mundo com madeira.
— “Bonito, né?” — disse meu amigo, sem ironia.
Concordei. Perguntei quanto tempo levara.
— “Não sei. Anos. Muito antes de eu trabalhar aqui. Era do dono da funerária que eu não conheci. Ele que fazia, um pouquinho por semana, me disseram.”
Anos. Para fazer uma caixa. Ou melhor: a própria caixa. E então veio a pergunta inevitável, quase inocente:
— “Mas se o velho já morreu… por que o caixão ainda está aqui?”
Meu amigo sorriu daquele jeito que só quem convive diariamente com cadáveres consegue sorrir. — “Porque a viúva achou caro demais pra ir com ele.”
Silêncio.
O homem havia morrido.O caixão, não.
O antigo dono da funerária, sujeito meticuloso, previdente até o último poro, havia passado os últimos anos da vida esculpindo o próprio repouso final. Não confiava em fábrica. Não confiava em MDF. Não confiava em acabamento industrial. Queria ser enterrado dentro da própria habilidade.
Mas a esposa — agora velha, agora proprietária, agora plenamente empresária — olhou para a obra pronta e fez a conta. "'Çuaê' vale muito mais."
Não caro no sentido emocional. Caro no sentido comercial. Pecuniário mesmo. Aquele caixão, segundo ela, valia muito. Podia ser usado para um enterro de rico.
Enterrou o marido em outro. Um padrão. Funcional. Honesto. E guardou a obra-prima.
— “Ela disse que era desperdício.” — completou meu amigo.
Desperdício.
O caixão ficou. Anos passaram. O velho apodreceu onde pôde. O caixão permaneceu intacto, esperando um comprador à altura. Um cliente com dinheiro, gosto refinado e nenhuma relação com o homem que o esculpiu.
— “E pelo que parece, não vendeu, né?” — perguntei.
— “Nunca. Ela ainda espera uma oferta melhor”
Porque ninguém queria pagar o preço. E talvez porque aquele caixão carregasse um detalhe inconveniente: ele já tinha dono. Mesmo vazio.
Até hoje, segundo meu amigo, ele ainda está lá.





