Na enchente, Veneza
- Ney Anderson Bedin

- 31 de mar. de 2025
- 1 min de leitura

O casal sempre sonhou em ir para Veneza e passear de gôndola.
Só que quarenta anos de dificuldades da vida nunca deixaram.
Filho que ficou doente e morreu, o fim de um ótimo emprego na fábrica de câmeras fotográficas de filme, a queda do padrão de vida...
A casa com bons móveis, mas que nunca foram trocados - então já decadentes, virou um refúgio confortável, já entendido como sendo o último. Com aperto, a mirrada aposentadoria ainda permitia que ela se dedicasse às suas plantas, num jardim escondido no fundo da casa, onde uma mesa e duas cadeiras serivam para que tomassem café, toda a tarde. Ele escrevia e lia, numa biblioteca bem servida, montada em tempos melhores.
Até o dia da primeira grande enchente.
E eles, salvos por um socorrista da Defesa Civil, são levados numa canoa comprida pelo rio em que se transformou a rua da casa, com tudo dentro destruído pela água.
Eles bem no meio do barco, acomodados um ao lado do outro. O socorrista, como um gondoleiro, impulsionava o barco, solene e soturno, com uma haste comprida, tocando o fundo - a rua. Na proa do barco, o filho do socorrista, tentava entender o cenário surreal.
Já amanhecia quando foram resgatados. Passando por debaixo de uma ponte, o menino rolando o feed do celular, pára num clipe de Com'È Triste Venezia,
de Charles Aznavour. O sol nascendo, os raios dourados ofuscam a vista marejada do casal.
Veneza, enfim.
--







Comentários