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Porcada (Pig Farm)

  • Foto do escritor: Ney Anderson Bedin
    Ney Anderson Bedin
  • 21 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura






Roteiro baseado no conto de Ney Bedin sobre um fazendeiro no Mato Grosso que vendia a mesma vara de porcos vez após vez. Negociava, vendia, e, quando o comprador passava da porteira da sua fazenda, pra ir embora, seus capangas o matavam com tiros, desmanchavam o caminhão, vendiam as peças e jogavam os corpos para os mesmos porcos - que eram devolvidos ao chiqueiro - comerem. “Porcos comem de tudo” - diziam. Era um fazendeiro impiedoso, o Coronel Reis. A fazenda tinha o nome pseudo-idílico de "Recomeço". A lenda dizia que tinha sido um militar que trabalhou para a ditadura, matando muita gente e, aposentado, escondeu-se no sertão do Mato Grosso, ironicamente perto do Araguaia. Por fim, um dia, o Coronel Reis olhando os porcos que retornavam pela décima vez ao chiqueiro, sofre um ataque cardíaco. Desmaia e cai no pátio principal do chiqueiro. Os porcos, acostumados com corpos humanos ali jogados, o devoraram, deixando só o chapéu.




ROTEIRO:


Título: "PORCADA (PIG FARM)

Texto e adaptação:- Ney Bedin



(1. ABERTURA – PLANO GERAL DA FAZENDA "RECOMEÇO"


(Noite chuvosa. A câmera sobrevoa a porteira enferrujada, os chiqueiros lamacentos, porteira rangendo. Um caminhão de porcos chega com um novo comprador).


VOZ DO RÁDIO (Chiando.):

"...e mais uma vez, a Polícia Civil investiga o desaparecimento de um comprador de gado na região do Mato Grosso..."


(Corte seco: o som de porcos esfomeados rosnando.)


2. INTERIOR – SALA DA FAZENDA – NOITE

(O CORONEL REIS, homem de bigode grisalho e olhos mortos, conta dinheiro em uma mesa de madeira. Ao lado, um capanga limpa uma espingarda.)


CORONEL REIS (sorrindo):


"Décima vez que a mesma vara de porcos é vendida. Negócio perfeito."


(O capanga ri, nervoso. O Coronel abre um álbum de fotos antigas: imagens de tortura, soldados da ditadura. Ele fecha o álbum bruscamente.)


3. EXTERIOR – PORTEIRA DA FAZENDA – MADRUGADA

(Um caminhão chega. O COMPRADOR, homem simples, desce confiante. Dois capangas surgem das sombras.)


COMPRADOR (inocente):

"Coronel, vim buscar os porcos!"


Todo o ritual é cumprido:- pagamento, carregamento, piadas sobre amenidades. Despedem-se. A porteira da fazenda ficava a cerca de 1 quilômetro da sede. Lá uma câmera registrava a saída do caminhão. Seriam ainda 14 km de estrada deserta e escura até o próximo povoado. Num cruzamento com vegetação alta, surgem os capangas que erguem as armas. TIROS. O comprador cai. O caminhão é levado para ser desmontado em um ferro-velho clandestino. Os porcos vão no caminhão da fazenda. O corpo do comprador segue junto. 


Corpo e corpos descarregados.


(PLANO DETALHE: Mãos sujas jogando o cadáver aos porcos. Os animais avançam, famintos.)


4. INTERLÚDIO – O PASSADO DO CORONEL


(Flashbacks em preto e branco: o Coronel, mais jovem, em porões militares. Gritos. Sangue. Um nome riscado de uma lista: "Recomeço".)


(Ele acorda suando. É presente. Algo o perturba.)


5. EXTERIOR – CHIQUEIRO – AMANHECER

(O Coronel observa os porcos. Eles rosnam, olham fixamente. Ele nota algo no lamaçal: um osso não devorado. Seu rosto se contrai.)


CORONEL REIS (fitando os porcos no chiqueiro e sussurrando):


"Quantos já foram?... Quantos?..."


(Súbito: DOR NO PEITO. Ele agarra o casaco. Mão no coração. Cai de joelhos. Os porcos se aproximam, farejando.)


(PLANO SUBJETIVO: O Coronel vê os focinhos ensanguentados se fechando sobre ele. Gritos abafados. A câmera se afasta lentamente. E desfoca.)


(SILÊNCIO. Só o som dos porcos comendo. Então, o CHAPÉU DO CORONEL sobra no lamaçal.)


6. FECHAMENTO – PLANO GERAL DA FAZENDA "RECOMEÇO"


(Dia seguinte. Um NOVO COMPRADOR chega. Os capangas sorriem, cumprimentam. A porteira se abre. O rangido metálico parecido com um uivo surge novamente. A música se repete, cíclica, infinita.)


(CORTE PARA PRETO. TÍTULO: "O RECOMEÇO NUNCA TERMINA - UMA PORCADA. UMA POR CADA CORPO)


FIM.


PORCADA


Um suspense claustrofóbico de violência implícita. Há um nervosismo na ambiguidade do final—os capangas continuam o ciclo, o Coronel virou apenas mais um segredo enterrado (ou devorado) no Mato Grosso.


 
 
 

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